nome: Luiz de Aquino
cidade: ?

idade: 79
estado: ?

   

 

PADRE DOM HELDER CÂMARA

"Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados"
Sermão da Montanha - Cristo

Antes muito antes mesmo
De seu exílio religioso
Entre Recife e Olinda
'Já desejava ter na mente
E também na alma sensível
Gravadas, indelevelmente
As palavras que seu Mestre,
Com as Verdades tamanhas
De Jesus no Sermão da Montanha
Contidas na beatitude.

Segurou a bandeira nas mãos
E saiu por aí a fora "lutando"
Pela paz entre os homens
Com humildade e justiça
Humilde, pregou com fé e coragem:
Que o Herói-vencedor
Não tivesse ódio do Vencido
E se lhe desse o Perdão
Com Paz e Humildade.

Por tudo isso, nós outorgamos
Ao Bem-Aventurado e Humilde
Dom Hélder Câmara, em nome
Do amor, o emérito título de
CAPELÃO DA PAZ E HUMILDADE.
"Bem -Aventurados os que choram
porque serão consolados
"Do mesmo autor, do sublime sermão".


 

 

AUGUSTO DOS ANJOS
ELEGIA

Lembrando o grande poeta


Nome faustoso - versos tristes;
Nasceu, viveu e muito amou.
Tanto sonhou - foi poeta.
Porém um dia - morreu.

Deixando um "eu" muito triste.

Foi Augusto - com angústia
E "Dos Anjos "vive a Paz.


 
 

PAISAGEM II


Um acaso. Um ocaso.
Que bela pintura.

Cascata Celeste
De luz e de sangue

Emoldurada de nuvens
E cadeia de montes.

No céu pendurada
No céu do horizonte.

Dedicatória
Tome Doutor essa amostra
De um produto só meu...
Que não cura nada
Mas dá um alívio
Depois de lida...

De um poeta Supérfluo
Angustiado e Sufocado
E um pouco chamuscado...

Coméntário: Surpreendo meu médico Dr. Daniel Deheinzelin, dedicando a ele esses versos. Ao doutor e pastor que cuida do seu rebanho com zelo e muito cuidado... e dos brônquios e alvéolos de meus pulmões.


 
 
PUREZA

Às duas pessoas que influíram na feitura
Desses versos. Com saudades

Ö como dói ouvir a voz
Da filha da solidão.
E um ventre murcho e vazio
Pede carícias em vão.

Pureza é o seu nome
Pureza a sem pudor.
Porém Pureza era tão pura
Como puro o que mais for.

Um dia Pureza disse
Conversando com uma amiga
'Que tinha ardores nos seios
e desejos na barriga.

Queria um homem queria,
Queria porque sentia
Que homens curam as dores
Que nos peitos, pressentia.

A amiga porém lhe disse
Com grande desilusão
Que mal assim tão estranho
Sarar não podia não.

Só depois do casamento
Curar-se podia então.
Mas eis que os anos se passam
E o casamento não vem...

PUREZA NUA NACAMA
Sonha nos braços de alguém

Libertada na loucura
Quando a noite é de luz
Ouve belas canções
Doces canções de ninar.

Ó como dói ouvir a voz
Da filha da solidão.


 
 
MANIFESTAÇÃO PACÍFICA DOS EXCLUÍDOS


... E HAVERÁ GRANDE MANIFESTAÇÃO
ESPONTÂNEA, ALEGRE E SILENCIOSA
ESTARÃO TODOS PRESENTES
SEM REIVINDICAÇÕES, SEM REVOLTAS,
...SORRIDENTES ESTARÀO PRESENTES.

SOMENTE AS MARCAS DAS DESVENTURAS
SERÃO VISÍVEIS, PORQUE CICATRIZARAM.

TODOS ESTARÃO FELIZES E CALADOS
NESTE JULGAMENTO FINAL - DEFINITIVO.
SOMENTE OS OLHOS REFLETIRÃO
AS DORES TODAS E O SOFRIMENTO
E TODA ANGÚSTIA REPRIMIDA.
NÃO SE FALARÁ EM VINGANÇA
E O ÓDIO DESAPARECERÁ. É A PAZ.

PORQUE AS LÁGRIMAS DO QUE SOFRERAM
DISSOLVERAM-SE NO TEMPO.


 
 
Paisagem I

Nas margens frescas de um rio,
Em uma noite de estio
Estava triste a pensar.
O vento soprava ameno,
Um luar branco, sereno,
Às águas vinha beijar.

Além lá no horizonte
A silhueta de um monte
Em forma d'arco se via
No cimo, uma palmeira,
Bela, ereta, altaneira,
Ao céu, o leque entreabria.

Em tudo isto que via,
Notava, arte e a poesia
De um artista genial.
Que nem mesmo Raphael
Com a força do seu pincel
Pintara paisagem igual.

Entretanto, por que deste,
Oh artista, o que fizeste,
A homens tão vis e maus?
Por que com teu imenso poder
Não transformas este se
Reduzindo tudo em caos?

E também por ser artista,
Ao homem este egoísta,
Ele o ama com fervor
Embora a ingratidão
Sente ainda em sua mão,
Da obra-prima - o valor.

Coméntário: Este foi o meu primeiro poema escrito.E publicado em 1936, pela "Voz da Mocidade" de um órgão evangélico. É por isto. Me considero poeta até hoje. Dedico-o ao reverendo Sebastião Moreira.


 
 
Protesto Silencioso

Embora calados, silentes
Alegres, risonhos, felizes
Eles estarão presentes.
Eles irão, tenho certeza.

Esta reunião será a última
Um tribunal com decisão determinada
Somente as marcas das desventuras
Como provas cabais de um passado
Das bocas nada mais se ouvirão
É julgamento final.

E as esperanças frustradas
Horas e dias roubados
De seus salários furtados.
Somente os olhos refletirão
As dores todas.
Não haverá mais dias
Nem horas também
Porque as lágrimas dos
Que sofreram
Dissolveram o tempo.


 
Irremediavelmente! Morto.
Aracajú 1951

Um fio de sangue escorria
Da boca de um jovem caído
No meio da rua - já morto.
Multidão se aproxima lenta.

Todos ficam curiosos com o fato,
E três pessoas destacam-se
Uma senhora serena e materna
Acendeu uma vela ao redor

Um homem bom de mãos trêmulas
Fez um sinal da cruz, improvisado
Uma moça bonita, olhos azuis
Tremeu com os lábios em preces.
Irremediavelmente.
Todos baixaram mutuamente
Os olhos para o chão, tristemente
E notou se que sentiu medo.
Um medo enorme de ouvirem
Daquela boca sangrenta.
As palavras que irremediavelmente
O cadáver não as dirá.


Momento
Aracajú 1953

Encontramo-nos a sós.
Os pensamentos ficaram nulos
Pois as palavras perderam
A força de transmiti-los

Um suave perfume de desejos
Odorizou todos os lugares
Torturas de mil infernos
Procuraram destruir
O grande gesto fecundante

No silêncio dos nossos lábios
Começa a dança do amor
Neste momento a rosa noturna
Cheirando a chuva fertilizante
Com todos os hormônios daquele instante
Abriu as pétalas e triunfou.

Cantem dançando pelos pedidos
Nas grandes noites
Ergam-se vozes para cantar
O doce canto das alvoradas -
Elas são livres.


Volta Poeta
A Jamil Almansur Hadad

Campos do Jordão é um poema
Que a natureza escreveu
E deste alegre poema
O triste verso sou eu

Volta poeta
Vem apascentar estas nuvens
Que pastam nos horizontes
Vem depressa! Vem ser
Pastor nestes montes

Vem comigo retirar
Aquela bomba dos nossos telhados
"Por causa das ameaças
nem dormimos sossegados"

Campos do Jordão é um poema
Que algum poeta escreveu
E deste outro poema
O alegre verso sou eu

Volta poeta
Vem consolar outros prantos
Vem cantar suas canções

Vem poeta!
Vem consolar novos prantos
Vem cantar tuas canções
Vem aplacar uma angústia
Que ainda envolve nações

A morte é bicho-papão
Que nos assusta demais
Vem acalmar a angústia
Cantando sua "berceuse"
Há melodia da paz


Irene

Lembrando Manuel Bandeira:
- "Dá licença meu branco?
E São Pedro - bonachão:
- Entra Irene, aqui você
Não precisa pedir licença".

Parece estou vendo
Irene, alegre, cantando
Risonha e feliz.
Irene era bela
Irene era pura
Com tanta candura

Irene meu bem!

Agora está suja
Já não é mais pura
Fugiu a formosura.
Caminha sem rumo
Tristonha, na rua
Pra lá e pra cá

Lá vai a Irene
Com sífilis no sangue
E AIDS também.
Não riam zombando!
Chorai meus irmãos!
Chorai como choro:

Irene meu bem!


 
 
Noturno Aflito
Aracajú 1955

Há estrelas no céu
E reflexos no mar.
O vento sopra, e
Eu penso e sofro!

Música estranha, louca melodia
Fustiga-me a alma, vinda com o vento.
Eu ouço vozes ecoando no ar.
Ouço crianças acordando pra mamar

E a louca melodia
Continua a fustigar
Choro, entristeço
E danço a cantar

Quem me dirá, murmurando
Se ainda esperança há?
São gritos angustiantes
De dor e fome. A tocar

Quem me dirá se esperanças
Ainda vão demorar?

E a doida melodia?
Eu penso e sofro,
Novo tom ouvi soar:
Há estrelas no céu

E com reflexos no mar.


 
 
Perdão!

Sigo caminhos a procurar
Um lindo rosto com olhos tristes
Que com palavras desfigurei.
Hoje certamente chorarei.

E se encontrar o lindo rosto
Neste destino de os achar
Com uma, lágrima, que seja a última
Pelo seu rosto vier rolar.

E os nossos dedos se envolverem
E a ternura por entre eles se derramar
E a seus olhos voltar o brilho
Da mansa paz do perdoar

Hoje, alegremente, vou chorar.


 

 

Mãe

À dona Alzira - pela vida.
E à Magnólia mãe das
nossas filhas: Tania e Mara.
Que nos deram cinco
netos.

Quem te fez assim tão bom
meu filho?
Foram os conselhos ternos
bem maternos
da senhora.

Quem te fez tão forte assim
meu filho?
Foram as noites mal dormidas
insofridas
da senhora

Quem te fez tão puro e manso
meu filho?
Foram as preces constantes
suplicantes
da senhora. Quem te fez tão belo assim
meu filho?
Foram o passos apressados,
preocupados
da senhora.

Quem fez de ti um poeta
meu filho?
Foram as velhas cantigas
tão amigas
da senhora.


 
 
Pureza - Inocente

Duas pessoas são a razão
Deste poema e das duas
Não as esqueço.

Ó como dói ouvir a do quarteirão
Com um ventre murcho e vazio
Pede carícias em vão.
Pureza era o seu nome.
Pureza a "sem pudor"?
Pureza que era tão pura
Como puro o que mais for.

Um dia pureza disse, conversando com
a amiga
Que tinha ardores nos seios
E desejos na barriga
Queria um homem queria.
Queria por que sabia
Que os homens curam as dores
Que nos seios ela sentia.

Porém a amiga lhe disse
Com grande admiração
Que mal, assim tão estranho
Sarar não podia não.