nome: Bruno Kampel
cidade: Rio de Janeiro

idade: 21
estado: Rio de Janeiro

   

 

POEMA DE AMOR

Sempre soube terminar os poemas
que falam de saudade, de amores
finitos, mas nunca começá-los,
pois o início tem gosto de ausência,
tem cheiro de perda, tem peso de outrora.

Amores passados, perdidos, partidos,
apenas convidam ao silêncio,
e a confissão, e a solidão, florescem
implacáveis na ponta da língua,
como brados, como adagas,
e então, ao pretender o afago,
apenas desenho um lamento profundo,
e ao tentar esquecer o inesquecível,
implanto as lembranças na retina da memória,
que dói como se fosse o dia da partida,
e não a hora das reminiscências.

Mas, sim: aprendi a dizer
que não te esqueço; que o eco dos teus pés
- que já foram o meu chão - retumba
a cada passo que caminho,
nesta doce amargura escandinava,
escondido entre loiríssimos cabelos
e branquíssimas mentiras.

Revejo os instantes
e vejo que o tempo, a destempo,
ensina a dizer que te amo,
que te lembro quando é tarde,
quando a noite do tempo deitou-se
para sempre entre nós, como barco
sem água, como rio sem margens
como um dia sem horas.

Difícil começar a dizer
da saudade que visto,
da angústia que vivo,
da dor que me ataca,
da culpa que sinto,
que não é vã, mas justa:
mea culpa, mea máxima culpa.

E os minutos, esses que teimam
em ficar horas a lembrar-te;
e as horas, que ficam dias teimando
em reviver os instantes que não voltam,
apenas desamarram as palavras
que impunes e sem medo
se escrevem letra a letra
lapidando um pedido de socorro,
rabiscando um retorno ao passado,
esculpindo um desejo de futuro,
conquistando uma chance de ventura.

Sim, não nego:

Quis construir uma ponte de amor,
um dizer de saudade,
um grito de esperança
um pedido de clemência.

Nem mais nem menos
nem muito ou pouco
nem tarde ou nunca:
um tudo ou nada.

Sim:

um poema de amor
manchado de saudade,
pintado em cor remorso,
é o que tento iniciar
e não consigo,
pois dizendo que sim,
que te amo
e não te esqueço,
não começo, mas termino.

E isso faço, começo terminando
com um resto de esperança,
que é o fim de todos os princípios,
e repito, como um disco,
que te amo, que te amo,
e que deixar-te foi tão duro
como te saber distante.

E termino começando,
pronunciando o teu nome,
o que até agora apenas me atrevia.
Sim: vivendo de amor, e não morrendo,
suando de ternura, e não de angústia,
gritando de esperança, e não de raiva,
é que penso em ti
e digo que te amo
meu Brasil nunca esquecido.



 

 

ESPERANDO

Amanheci abrindo a porta do mistério
no qual estaciono a vida enquanto durmo
procurando nele o meu sorriso matutino
meu olhar mais sereno e deslumbrante
minha intenção mais genuína e solidária
e também minha alegria renascida
mas por mais que buscasse nas gavetas
e nos restos da noite que findara
nada achei pendurado nos cabides
a não ser a lembrança de outros tempos
e atônito ante a ausência de mim mesmo
sentindo-me num beco sem saída
apertei o gatilho da esperança
e correndo até o espelho da memória
meti nele minha sombra amarrotada
e lá estou esperando-me sentado
até a hora que voltar não sei de onde.